terça-feira, 6 de novembro de 2018

MACONDO UM MUNDO NENHUM NO MAR




                        Hoje o mar faz onda feito criança, no seu balanço calmo nós descansamos. Nessas horas dorme longe a lembrança da felicidade. Quando a tarde toma a gente nos braços, sopra um vento que dissolve o cansaço, é o avesso do esforço que eu faço para ser feliz. O que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia, as cores, figuras, motivos, o sol passando sobre os amigos, histórias, bebidas, sorrisos e afeto em frente ao mar.
                     Quando as sombras vão ficando compridas, enchendo a casa de silêncio e preguiça, nessas horas é que Deus deixa pistas da felicidade e quando o dia não passa de uma fotografia, colorindo de saudade o meu quarto, só aí vou ter certeza de fato que eu fui feliz em Macondo.
                     Macondo fica aqui e ali. Nosso ponto pacífico, nossa linhagem de solidão. Pode ser seu quarto, pode ser que não. É lugar grande, fora do mapa. Ache-me aqui quando quiser. Sente-se aqui, estique as pernas e me fale de felicidade.
                   Meu nome é Sidney, passei a noite sonhando com lugares na minha imaginação. Cansado de lugares onde não se escuta o ronco da barriga do mundo, mundo de fronteiras, de credo, de cor, sexo, de amor, de deus, de fome e de dor. Há homens de mãos de ferro que quebram corações de pedra, cultivam flores, livres do cativeiro de si e entoam outros cantos. Levantei pela manhã com meu propósito bandeirante:
                 Eu, Mitos, Aries, Prometeu, derrubamos árvores, abrimos uma clareira, e em sete dias levantamos nossa Macondo. Utopia possível que me atormenta até hoje. Lá erguemos nosso mundo repleto de contradições. Para se ter idéia e fazer sentido (ou não) narro este fato:
                 Mitos casou-se com uma menina linda, a mais linda da aldeia, por ser linda e sedutora outras mulheres a invejavam e criavam estórias sobre ela que a tornariam uma lenda. Para todos ela era protetora da aldeia e devorava homens que a pensassem em desejar ou destruir. Para muitos, Mitos só a teria até desvirginá-la, a partir de então seria devorado.
Um dia Mitos saiu para caçar buscar alimento para a família. A volta havia sido produtiva, estava feliz, pois caçara o maior tenro cervo para o jantar; o sangue escorria pelo corpo do animal, vermelho vivo.
                Eva em casa esperava Mitos e pela primeira vez menstruava, assustada com o sangue que lhe escorria pelas pernas, viscoso e quente. Mitos abriu a porta, se assustou, olha o cervo em sangue e a mulher em sangue...a cena durou minutos, em silêncio profundo, parecia que não ia acabar nunca. Mitos desaba de joelhos e chora. A partir desse dia Mitos ficou na memória do povo e modificou a vida do seu mundo. Instituiu-se então na aldeia o “O dia do sentido da vida”.
                Nesse dia as meninas ficavam acorrentadas. Choramingavam num canto de uma jaula feita de ossos e ornadas com cabeças de outras crianças. Nuas sentiam muito frio. Os corpos estavam feridos por vários cortes profundos na pele. De quando em quando outros eram feitos para vê-las gritar para delírio do mundo.
                Cada um da comunidade tinha uma função específica: Aries organizava as relações sociais, as regras eram criadas a partir da observação do comportamento do coletivo, Prometeu cuidava da alimentação e produção. Eu? Já havia morrido no sonho que não era mais meu, Macondo nunca existiu.
                Além dos cortes que eram feitos nas meninas, elas recebiam pancadas de bastão para amaciar a carne, a ser comida. Outras mulheres se juntavam aos pares e trocavam carícias, se lambiam, se chupavam, enquanto os meninos esfregavam os pênis e penetrar-lhes as mãos nas vaginas. As mulheres mais velhas vigiavam, para espantar-lhes. Todos gritavam, dançavam em frenesi, levantavam a mão para o céu e gritavam o nome de Mitos, sentiam uma sensação de poder do céu, perante aquilo que não tinham respostas, assim como o vento que soprava forte, esperavam respostas mais só o silêncio falava.
                 As meninas que menstruavam lambiam os dedos sujos do sangue que lhes jorrava das pernas exaltando a Eva. Outras meninas mais novas assistiam o que era já um gesto cotidiano do “Dia do sentido da vida”. Muitas meninas se uniam aquelas para imitar ou só para aprender. Os meninos aprendiam, observando com toda atenção os atos, para poder passar as gerações futuras.
                  Os caçadores traziam três cervos para assar na fogueira no centro da aldeia. Todos entendiam que ao cair da noite todos poderiam se fartar com a carne das meninas acorrentadas, dos cervos que chegavam e festejar por comer a si mesmos em busca de sabedoria. A morte das meninas não poderia ser apressada pois tiraria a maciez da carne cerebral e do corpo.
                 Os homens se pintavam com o sangue dos cervos, pintavam os meninos em fila e depois dançavam sem parar. Só dançavam, em silêncio absoluto, na hora da pintura.
É noite todos pegam seus porretes e se dirigem as meninas ainda vivas, cada um dá uma porretada e Prometeu corta pedaços e se encarrega de distribuir para todos, ninguém ficaria sem comer. Comeram beberam sangue das mortas e de outras e mais outras, limparam os ossos, ofereceram a Mitos e Eva, dispostos no centro da aldeia, sentados para admirar em silêncio o sentido da vida. Meu barco a vela navega esse rio, não ilumina o mar. Mar que não conheço a fundo, onde o vento parece querer morar de vez. Teatro onde se encena mundos, e marlins azuis são raros, observo da minha aldeia, que lá em outros mundos estão abatendo baleias como aqui fazem com as meninas.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

A MENINA E O PLANETA UTOPIA

Por SIDNEY NUNES


            A mamãe levou sua filha ao cinema para assistir um filme sobre as crianças do mundo. Sentaram-se nas cadeiras do cinema que escureceu e começou o filme. Ela falou:
            Está vendo que existem crianças diferentes umas das outras? Umas pobres, outras ricas, umas brancas, outras negras, de olhos castanhos, azuis, verdes, puxados, redondos, grandes, pequenos. Crianças com saúde, outras doentes, com incapacidades, outras perfeitas, tristes e alegres.
            - Porque, mamãe? Quis saber a menina.
            - Porque? Ah! Sei lá! Porque sim.
            - Porque sim não é resposta! Deve haver um lugar onde todos são iguais.
            - Isso a gente chama de utopia filha!
            A menina fechou os olhos e ficou pensando como achar e conhecer um lugar chamado utopia.
            No dia seguinte foi ao quintal com uma ideia, desenhou uma espaçonave no chão e resolveu construir, chamou um amigo e uma amiga e contou seu plano de construir uma nave para voar no espaço e procurar um planeta onde todas as crianças fossem iguais, que sua mãe disse se chamar utopia. Era simples construir apontar o bico da nave em direção a lua e voar direto para lá, logo atrás tinha um planeta escondido. Para isso precisava descobrir quanto tempo levaria para chegar e tinha que ser em lua cheia.
            Passaram a tarde juntos, desenhando, fazendo contas, até a hora de irem para suas casas. O sono foi de muitos sonhos, ideias e imagens. No dia seguinte cada um trouxe algo para começarem a construção e falar sobre o que levar para comer, bolachas, chocolates, balas e muita água.
            - Não podemos levar doces! Numa viajem que demora a gente precisa levar muitas frutas e legumes, senão a gente pode engordar e a nave pode cair.
 Então sua amiga Gabi disse:
- Será que essa coisa de planeta utopia existe mesmo? Nunca ouvi falar nisso, e se as nuvens baterem na nave e a gente ficar presos no céu?
Pedrinho teve uma ideia:
- Vamos levar uns balões de festa e muita corda para gente se amarrar. Se a gente ficar preso, a gente enche os balões e pula para a terra.
Mariana falou:
- Gente! Nuvem é só fumaça. Vamos levar os balões, mas também vamos levar oxigênio em saquinhos para caso a gente precise respirar.
- Nossa nave já está pronta! Como eu sou o único menino eu que vou pilotar.
Gabi retrucou:
- Não! Não mesmo! Nós somos duas meninas e você é só um, nós que vamos pilotar!
Mariana assumiu o comando.
- Eu tive a ideia!
- Combinado! Concordaram os dois.
Entraram na nave apertada, colocaram os cintos de segurança e VRRUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMM...
Lá se foram céu acima. O planeta atrás da lua não era perto, demorava a chegar. Até que chegaram a lua finalmente. Abaixaram os colchões na traseira da nave para descer no macio. Mariana desceu tranquila e pousou.
Desceram todos na lua e ficaram maravilhados. A lua parecia um queijo todo furado. Olharam para todos os lados a procura do planeta utopia. Até que viram uma pequena estrela que brilhava e piscava muito.
Gritou Mariana:
- Olha lá! Encontrei! Precisava agora pensar em como chegar até lá. Pensaram... pensaram... pensaram muito, muito mesmo...
Gabi falou primeiro:
O Pedrinho trouxe um montão de corda. A gente desenrola ela toda, tiramos as pedras das botas que prendem a gente no chão da lua, amarramos na ponta da corda as pedras e jogamos para o planeta. Ela vai ficar esticada e a gente bem leve pode subir neta e chegar até lá.
Pedrinho respondeu:
- É! Amarramos uma outra corda em nós para ninguém se perder.
Lançaram a corda em direção ao planeta e ela se esticou todinha, as pedras foram direto e caíram no chão do planeta. Todos estavam bem leves que conseguiram irem se apoiando na corda e avançando para o planeta até se aproximarem do chão. A medida que chegavam tudo mudava de cor. Descobriram que estavam atravessando o arco - iris. Todos estavam maravilhados. Ninguém ficou com medo.
Estavam adorando a aventura. Pisaram no chão e viram o lugar mais bonito do mundo. Não conseguiam nem falar. Crianças voavam, brincavam, plantavam, eram todas amigas, se ajudavam mesmo sendo diferentes. Os bichos de lá eram todos mansinhos. Tinha até uma gata que era casada com um rato. Uma cobra que cuidava de pintinhos. Um leão que só comia legumes. Era tudo cheio de paz.
Começaram a ficar com muita fome e sede. Tentaram beber e comer, mas a água atravessava as mãos, assim como tentaram pegar frutas, doces, mas tudo se evaporava, eram só imagens, imaginação.
Cansados e com fome resolveram voltar para a nave. Estavam muito felizes com o planeta. Todos seguraram firme na corda e foram voltando devagar para a nave e partiram novamente para casa. Voltaram em um completo silêncio, pousaram, comeram sem parar e exaustos foram para suas casas dormir.
Acordaram muito cedo, pareciam flutuar de contentamento, tanto que provocavam olhares curiosos por onde passavam. Ao se encontrar desembestaram a falar sem parar.
Dizia Pedrinho;
- É um lugar de imaginação, tudo que a gente pensava acontecia.
Disse Mariana:
- Era tudo muito bonito! Não sei como explicar! Era muito colorido, alegre, tinha cama mas não dava para deitar, tinha comida mas não se podia comer, tinha casa mas não dava para entrar...
- Tudo parecia um sonho! Falou Gabi.
Respondeu Pedrinho:
- Parecia sonho, mas não foi, não é!
Passaram a contar essa aventura para todos que encontravam. Mas não acreditavam muito, porque ela só sabia dizer que era tudo muito lindo. Só restava a Mariana tentar fazer reproduzir aqui tudo que aconteceu no planeta Utopia.
Então ela deu um sorriso, relembrou toda a aventura na cabeça, e ficou com aquele rosto de mistério contente para sempre.